A marca de uma lágrima
Não havia lágrimas. Não havia dor. Não havia então e nem houvera quando ficou sabendo. E não, não foi torpor, nada daquele vazio de sensações que antecede o desespero, ou as dores maiores. Simplesmente não houve nada.
O coração disparara sim, mas pela dor que o acontecimento poderia causar nas pessoas que amava. Parara um segundo com a imediata lembrança de quem mais sofreria, de quem ela não queria que sofresse nunca, de quem ela queria proteger mais que qualquer coisa.
Não disse nenhuma palavra de conforto, até porque não acreditava nelas, e não tentaria amenizar a dor tão real com aquela névoa de frases vazias. Como falar da inversão da ordem natural das coisas? Como? E como falar da saudade pela ausência de um amor que ela nunca acreditara existir? Como consolar?
Além daquelas, que haviam rolado dos avermelhados olhos ladeados de rugas que tanto amava, não vira lágrimas outras. Não sentira perda em ninguém mais. Todos vivendo mais aquele dia como qualquer, mais atribulado, talvez.
E ela só parada, pensando em tanta coisa, meu Deus. Não acreditava que com a morte o sofrimento acaba, não acreditava em esquecer a vida que fora vivida, não acreditava nessa mania besta que as pessoas têm de falar bem de que já se foi simplesmente por não estar presente.
Não acreditava, tampouco, em guardar ressentimento, em amarrar seu destino a quem tanto mal já fez. Acreditava em rezar pela caminhada contínua, em lembrar momentos bons sim, mas sem forçar depoimentos ingenuamente – ou forçadamente - positivos. Não é a morte que transforma as pessoas em anjos, mas a luz que delas irradia.
E aí sim, quis chorar, falou com voz embargada, pensou em tanto que ainda teria que viver – viver sim, aqui ou alhures-. No sofrimento tanto, que só começava. Rezou pela compreensão do que acontecera, rezou para que o protegessem – até de si. Rezou para que percebesse a eternidade, a luz, o crescimento tão necessário e inevitável. E chorou. Porque não conseguira chorar.
